Aprendendo a amar bonito

Dia desses os pais de um amigo meu fizeram 40 anos de casados.

Acho digno e bato palma para quem comemora tantos anos juntos. Mas tem que ser de verdade, sabe?!

Por exemplo, conheço casais com 30, 40 e 50 anos presos em um casamento que a maior demonstração de ser um casal é morar na mesma casa.

Digo isso, pois, desde que me entendo por gente e até pouco tempo atrás, considerava o casamento uma instituição falida. Raramente via demonstrações de afeto, amor, paixão, tolerância, companheirismo… Venho de uma família que a frase “o que os outros vão pensar” era mais importante que os próprios sentimentos. Além de fazer parte da geração dos filhos com pais separados… Já viu, né?!

Cresci achando que amor era literatura. E por esse pensamento, atraí essas coisas para os meus relacionamentos amorosos.

Mas com o tempo você percebe que existem amores bonitos por aí. Reais e bonitos, duradouros, sinceros… com ou sem defeitos. Cada um sabe de si.

E olhando a foto desse casal de “tios” (não sei o motivo que quando somos pirralhos, chamamos os pais dos nossos amigos de tios… Aí você fica velho e continua chamando), lembrei de um texto que uma professora de literatura me enviou no pré-vestibular. Ela viu em mim um potencial para o amor, mas eu estava muito escondida atrás de muros de proteção. Então, ao final de uma aula, ela me deu uma folha de papel ofício, com o texto a seguir impresso:

“Talvez seja tão simples, tolo e natural que você nunca tenha parado para pensar: aprenda a fazer bonito o seu amor. Ou fazer o seu amor ser ou ficar bonito. Aprenda, apenas, a tão difícil arte de amar bonito. Gostar é tão fácil que ninguém aceita aprender.

Tenho visto muito amor por aí. Amores mesmo, bravios, gigantescos, descomunais, profundos, sinceros, cheios de entrega, doação e dádiva. Mas esbarram na dificuldade de se tornar bonitos. Apenas isso: bonitos, belos ou embelezados, tratados com carinho, cuidado e atenção. Amores levados com arte e ternura de mãos jardineiras.

Aí esses amores que são verdadeiros, eternos e descomunais de repente se percebem ameaçados apenas e tão-somente porque não sabem ser bonitos: cobram, exigem; rotinizam; descuidam; reclamam; deixam de compreender; necessitam mais do que oferecem; precisam mais do que atendem; enchem-se de razões. Sim, de razões. Ter razão é o maior perigo do amor. Quem tem razão sempre se sente no direito (e o tem) de reivindicar, de exigir justiça, equidade, equiparação, sem atinar que o que está sem razão talvez passe por um momento de sua vida no qual não possa ter razão. Nem queira. Ter razão é um perigo: em geral enfeia o amor, pois é invocado com justiça, mas na hora errada. Amar bonito é saber a hora de ter razão.

Ponha a mão na consciência. Você tem certeza de que está fazendo o seu amor bonito? De que está tirando do gesto, da ação, da reação, do olhar, da saudade, da alegria do encontro, da dor do desencontro a maior beleza possível? Talvez não. Cheio ou cheia de razões, você espera do amor apenas aquilo que é exigido por suas partes necessitadas, quando talvez dele devesse pouco esperar, para valorizar melhor tudo de bom que de vez em quando ele pode trazer. Quem espera mais do que isso sofre, e sofrendo deixa de amar bonito. Sofrendo, deixa de ser alegre, igual, irmão, criança. E sem soltar a criança, nenhum amor é bonito.

Amor bonito

Não tema o romantismo. Derrube as cercas da opinião alheia. Faça coroas de margaridas e enfeite a cabeça de quem você ama. Saia cantando e olhe alegre. Recomendam-se: encabulamentos, ser pego em flagrante gostando; não se cansar de olhar, e olhar; não atrapalhar a convivência com teorizações; adiar sempre, se possível com beijos, ‘aquela conversa importante que precisamos ter’; arquivar, se possível, as reclamações pela pouca atenção recebida. Para quem ama, toda atenção é sempre pouca. Quem ama feio não sabe que pouca atenção pode ser toda a atenção possível. Quem ama bonito não gasta o tempo dessa atenção cobrando a que deixou de ter.

Não teorize sobre o amor (deixe isso para nós,pobres escritores que vemos a vida como a criança de nariz encostado na vitrina cheia de brinquedos dos nossos sonhos); não teorize sobre o amor; ame. Siga o destino dos sentimentos aqui e agora.

Não tenha medo exatamente de tudo o que você teme, como: a sinceridade; não dar certo; depois vir a sofrer (sofrerá de qualquer jeito); abrir o coração; contar a verdade do tamanho do amor que sente.

Jogue por alto todas as jogadas, estratagemas, golpes, espertezas, atitudes sabidamente eficazes (não é sábio ser sabido): seja apenas você no auge de sua emoção e carência, exatamente aquele você que a vida impede de ser. Seja você cantando desafinado, mas todas as manhãs.

Falando besteira, mas criando sempre. Gaguejando flores. Sentindo o coração bater como no tempo do Natal infantil. Revivendo os carinhos que intuiu em criança. Sem medo de dizer eu quero, eu gosto, eu estou com vontade.

Talvez aí você consiga fazer o seu amor bonito, ou fazer bonito o seu amor, ou bonitar fazendo o seu amor, ou amar fazendo o seu amor bonito (a ordem das frases não altera o produto), sempre que ele seja a mais verdadeira expressão de tudo o que você é, e nunca: deixaram, conseguiu, soube, pôde, foi possível, ser.

Se o amor existe, seu conteúdo já é manifesto.

Não se preocupe mais com ele e suas definições. Cuide agora da forma. Cuide da voz. Cuide da fala. Cuide do cuidado. Cuide do carinho. Cuide de você. Ame-se o suficiente para ser capaz de gostar do amor e só assim poder começar a tentar fazer o outro feliz.”

(TÁVOLA, Arthur da. “Para quem quer aprender a amar”. In: COSTA, Dirce Maura Lucchetti et al. “Estudo de texto: estrutura, mensagem, re-criação”. Rio, DIMAC, 1987. P. 25-6)

Era difícil para uma adolescente, quase chegando na maioridade, depois de ter se deparado com casais que não dormiam mais na mesma cama, aqueles que nunca, sequer deram um beijinho de despedida na frente das pessoas (tenho lá minhas dúvidas se algum dia já deram um beijo), casais que traíram e guardavam mágoas eternas, ler esse texto e achar que o amor bonito existia? Ok, eu já tinha lido sobre isso… A bíblia, no meu caso, era a maior referência de amor bonito. Mas era o amor que eu não via em ninguém, até mesmo naquelas pessoas que me ensinaram as coisas da bíblia.

Mas aí, você muda de cenário. Conhece novas pessoas, permite que o mundo te apresente coisas interessantes e começar a escrever e teorizar, como diz o escritor em questão, se torna permitido para a mais nova escritora.

Os questionamentos, a exceção a regra, a ovelha negra, o patinho feio, qualquer coisa que saísse do contexto habitual, fez com que um leque de opções aparecesse.

Qualquer um pode dizer amar. Qualquer um tem o dom de amar. Difícil é ter razão e não cobrar, não explodir. Pois é um fato que quando estamos cheios da razão perdemos um pouco do respeito pelo próximo. Perdemos a mão na cobrança. Falamos sem pensar. Julgamos. Não sentimos o coração bater, não damos espaço para felicidade.

Todos terão razão em algum momento da vida.

Amar e se preocupar com a opinião alheia é criar correntes bem grandes para a sua relação. Elas podem te dar uma certa autonomia, mas em alguma hora vão travar o seu caminhar. E pode ser bem brusco e machucar.

Conheço poucos amores bonitos. Alguns deles, por espanto meu, vacilaram em algum momento. Mas por terem superado, demonstram o quanto são, realmente, bonitos. E são eles que me mantém firme na busca de fazer o meu amor bonito, a cada dia.

Ontem eu deixei a razão falar mais alto. Hoje, o amor reina!

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