Mãe! – Teorias do filme mais amado [e odiado] do ano

Por provocar tanto amor e ódio, decidimos falar sobre Mãe!, filme de Darren Aronofsky, diretor de filmes como Cisne Negro, O Lutador, Réquiem para um Sonho e Noé.

No filme, um casal interpretado por Jennifer Lawrence e Javier Bardem vive em uma casa isolada que está no processo final de reforma, quando visitas começam a colocar a relação dos dois em risco. Acompanhando o olhar de Jennifer, a responsável pela casa, o diretor cria uma história que longe de ser um terror como foi apresentado em seu trailer, faz o espectador pensar.

Mas como a ideia desse texto é justamente dar SPOILER do filme, vamos ir mais a fundo.

Se o diretor usou uma passagem do velho testamento para Noé, seu último filme antes de Mãe!, nesse ele trata a história da humanidade através da Bíblia inteira.

Na primeira meia hora de filme fica claro que enquanto o escritor vivido por Barden, um escritor famoso sem inspiração, é livre para ir onde quiser enquanto Lawrence está presa dentro dos limites de sua morada, que cuida com zelo em um misto entre dona de casa e pau pra toda obra, já que é ela que toca as tarefas domésticas e as reformas na casa.

A vida do casal é tranquila, até que um homem sem nome vivido por Ed Harris aparece procurando abrigo. Barden fica muito à vontade com aquela visita, enquanto o incômodo de Lawrence deixa claro que ela não entende o que está acontecendo.

No dia seguinte, após uma noite mal dormida onde Barden o ajuda, Harris apresenta sua esposa, vivida por Michele Pfeiffer.

Deus, Adão e Eva

Apesar dos personagens não terem nome, essa trinca representa Deus, Adão e Eva. Na cena onde Ed Harris passa mal e Barden o auxilia, fica clara a cicatriz na costela de Adão. Já Jennifer vive Gaia, a alma da Terra, por isso seu zêlo com a casa, que no caso é nossa referência de mundo.

Enquanto Barden e Lawrence são jovens e fisicamente saudáveis, o homem e a mulher são mostrados cheios de vícios e doentes desde que aparecem. Adão fuma, Eva bebe e estão envelhecidos. Há também muita malícia em Eva antes dos dois serem “expulsos” do Paraíso. A conversa entre Pfeiffer e Lawrence mostra uma mulher cheia de acidez, o que lhe confere também o papel de serpente.

E tal como o fruto proibido, homem e mulher destroem o diamante guardado no escritório de Deus, o que provoca sua fúria e os expulsa dali, bloqueando o acesso ao seu “Paraíso”. Essa é a única cena em que Deus realmente age, pregando tábuas sobre a porta para bloquear o acesso.

Caim, Abel e o Dilúvio

As cenas seguintes apresentam os filhos do casal brigando pelo testamento do pai. E tal como no Gênesis, por ciúme, acontece o fratricídio, mas diferentemente do livro bíblico, não é Caim quem fica marcado para sempre e sim a casa, que passa a ter seu piso manchado pelo sangue de Abel, que apodrece a madeira relevando uma sala escondida no porão, que pode ser interpretada como inferno. Antes de partir, Caim diz para Lawrence que ela deve entender como é ser preterida.

Acreditando que a casa vai ficar vazia por um tempo, Lawrence se surpreende ao ver que todos retornaram para velar Abel, acompanhados por muitos rostos novos. Convidada a falar em homenagem ao velado, Gaia mostra que não consegue expressar qualquer afeição ao ser humano, enquanto Deus assume a palavra.

As pessoas que chegam a cada momento começam a danificar a casa, causando o desespero da protagonista com a invasão, até que o encanamento é quebrado e quando a água começa a jorrar, todos são expulsos. Assim Aronofsky nos apresenta sua nova interpretação do dilúvio, um novo período de paz na casa.

O Filho

Em uma cena cheia de tensão, o casal faz sexo pela primeira vez na história e ao final ela sabe que está grávida.

Saber da gravidez da esposa faz com que o escritor se inspire a escrever sua nova obra-prima, uma poesia que o faz ser reconhecido e pode ser interpretada como as escrituras sagradas.

Na noite de comemoração, quando a casa se encontra em seu mais perfeito estado e Lawrence linda em vestido de festa prepara um banquete, a imprensa vem em busca do escritor. E é nesse momento que o filme se torna uma loucura – ou uma chatice para alguns.

Dois mil anos se passam com pessoas invadindo a casa, proclamando profetas, destruindo coisas, lutando entre si, impondo-se a outros, fazendo guerra, buscando a salvação do planeta e também pedindo a sua destruição. A história da humanidade vai acontecendo em fatos que se sucedem em uma noite longa demais, que culmina no nascimento do filho do casal, que é entregue por Barden ao povo que habita a casa e escolhe devorá-lo.

O Apocalipse

Vendo que o único amor que um dia nutriu por um ser humano ser retirado de si, Gaia tem um ataque de loucura, ataca as pessoas em sua casa e posteriormente decide dar um fim a casa, ateando fogo em um tanque de combustível que se encontrava na sala secreta do porão.

Ao ver que Barden continua íntegro mesmo após a explosão, Gaia destruída pelo fogo pergunta quem é seu marido e ouve a resposta do Êxodo 3:14, quando Deus diz a Moisés “Eu Sou o que Sou”. Antes que ela morra, Deus pede seu amor, que ela entrega sem relutância e se torna o novo diamante/fruto proibido de Barden.

Tudo é cíclico?

O filme termina com a repetição da mesma cena de seu início, mas dessa vez quem acorda não é Jennifer Lawrence e sim outra atriz, o que pode ser interpretado que a história contada, com uma Gaia caucasiana-europeia, trata-se apenas da nossa existência que é o que nos compete compreender.

Pode ser que a Deus tenha aprendido com esse ciclo, pode também ser que não tenha aprendido nada e repita os mesmo erros, mas o filme deixa claro que o único que tem consciência do que existe e acontece é Barden.

O Remédio de Pó Amarelo

Questionado na estreia em Veneza sobre o pó amarelo que Gaia usa algumas vezes e se desfaz quando se descobre grávida, o diretor disse que não responderia sobre, mas que a inspiração para isso pode ter vindo da literatura victoriana e da ligação entre ela e a casa.

Então o Daily Beast sugeriu que trata-se da história de “O Papel de Parede Amarelo”, livro de Charlotte Perkins Gilman publicado em 1892 que retrata uma mulher que, obcecada com uma parede com papel de parede amarelo, sofre de delírio e depressão.

Como Jennifer recorre ao pó amarelo cada vez que está prestes a surtar, é fácil concordar com essa explicação. Sobre ela descartar o remédio após saber que está grávida, pode ser que a relação de se tornar mãe tenha sobre ela um efeito tranquilizador e ela saiba que a partir daquele momento terá que ter algum elo com a humanidade.

Mãe!

Seja pelo bem ou pelo mal, Mãe! é filme que não deixa ninguém sem um ponto de vista. Por isso gostaria de saber: quais são as suas impressões do filme? Conta pra gente aí embaixo!

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