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A trilha sonora da sua vida, parte 1 – Sem alarmes e sem surpresas

Dando sequência ao texto da quinzena passada, em que solicitei a vocês que me dissessem quais músicas foram/são repertório da sua vida, começo a tentar descobrir esse tipo de relação de amor muito peculiar: o amor por uma música.

As relações de amor com uma canção geralmente nascem de associações causadas por outras experiências; e às vezes isso leva tempo. Mas às vezes é amor à primeira audição.

É com esse tipo de amor que eu começo essa “série”. E vou começar com a minha paixão musical adolescente, que felizmente dura até os dias de hoje.

Você passa quase toda a sua infância sem identidade. Não escolhe as roupas que veste, não escolhe as músicas que ouve. Vive com outros olhos lhe guiando. Mãe, pai, professor, todos constroem a sua personalidade, mas ela só vira propriedade sua um tempo depois.

E então você muda. Não pensa como uma criança, não age como uma criança (ou pelo menos tenta não agir), e já arrisca algumas escolhas próprias. Você começa a definir os seus gostos, suas preferências, seu estilo, sua identidade. Escolhe, por fim, as roupas que veste e as músicas que ouve.

Com 13 anos, eu tentava fazer o sinal UHF funcionar na minha televisão porque meus amigos mais desenvolvidos musicalmente falavam de uma tal de Mtv, e eu precisava saber do que se tratava. Quando finalmente descobri como pegar o canal 24 na minha tevê, eu não desligava mais. Foi assim que conheci uma série de bandas – novas, antigas, boas, ruins, que eu ainda escuto até hoje, que eu tenho certa vergonha de dizer que ainda escuto, que eu definitivamente nunca deveria ter escutado, e por aí vai.

A Mtv também tinha vinhetas muito legais nos intervalos comerciais. Uma delas fazia parte de uma “série” de vinhetas chamadas “A Evolução da Espécie”, que mostrava trechos de clipes de “épocas” diferentes, mas dentro de um mesmo tema, pra demonstrar como esse nicho musical evoluiu musicalmente.

Assistindo a uma dessas vinhetas da Mtv, me deparo com uma banda que eu nunca havia escutado. Na vinheta em questão, a única coisa que aparecia era um take de cinco segundos com um cara estranho num aquário cantando enquanto a água ficava subindo. Lembro do refrão, que dizia “no alarms and no surprises”. Sem alarmes e sem surpresas. Lembro que isso mudou a minha vida.

A vinheta em questão é essa, e o cara em questão era o Thom Yorke, vocalista do Radiohead:

Com 14 anos e algum conhecimento do mundo virtual, me aventurei nos sites de download (pff, dinheiro!) atrás dessa banda. Era 2003 e eles haviam recém lançado “Hail To The Thief”, o primeiro álbum deles que eu escutei por completo. A sensação era inexplicável. A explosão inicial de 2+2=5, o realismo (os otimistas diriam “pessimismo”) incrível da letra de Backdrifts, as sacadas geniais (e o clipe!) de There There (“só porque você sente, não quer dizer que esteja lá” (…) “nós somos acidentes esperando para acontecer”), e a perfeição de A Wolf At The Door, tudo era surreal.

Com 15 anos, eu ainda não conhecia ninguém que gostava de Radiohead. Já tinha o Ok Computer e o Hail To The Thief disputando espaço no discman (gravados em cds virgens na lanhouse perto do colégio enquanto todo mundo jogava CounterStrike), mas quando comentava com alguém da banda, só recebia indiferença. Será que só eu via a beleza de Exit Music (for a film), ou de Let Down? Ninguém. E daí eu mudei de colégio.

Fui para um colégio onde eu não conhecia ninguém. Sentava na classe e acabava com as pilhas (pilhas!) do discman em um dia. Minha “base” roqueira ainda era muito rasa, mas o allstar no pé já era usado por vontade própria. E daí vieram os amigos. Um fã de Silverchair, um fã de Led Zeppelin, uns fãs de Nirvana (quem?), um grupinho de metaleiros (fique longe destes), outro grupinho de “punks”, outro grupinho ensaiando o que viria ser a modinha emocore (um alívio eu não estar mais no colégio quando explodiu a modinha), e por aí vai. Nessa época eu conheci meu melhor amigo, meu primeiro parceiro musical, e juntos descobrimos toda a discografia do Radiohead, e fomos ao show deles em São Paulo em 2009, e berramos “Creep” junto com outras trinta mil pessoas. Bem legal para uma banda que ninguém conhecia, né?

Tudo isso começou naquela vinheta da Mtv. Naqueles cinco segundos. No melhor clipe da melhor música de todos os tempos, na minha modesta e apaixonada opinião.

Uma música triste, é verdade. Que (na minha interpretação) fala sobre o recém adulto que tinha sonhos e esperanças, que se voltava contra o sistema na adolescência, mas que se resignou a um emprego estressante e sem sentido, que se habituou a beber, fumar, comer mal, e aspirar poluição diariamente, enchendo o corpo de venenos. Um corpo e mente cansados, que não protestam mais, que não tomam mais ações, que não têm mais força pra mudanças, que trocaram a emoção de viver pela mínima comodidade, e receberam em troca uma “bela” casa com quintal. Que se acomodaram em um mundo de trivialidades e não têm mais forças pra se importar com tudo de ruim que existe nesse mundo.

Eu não era esse adulto quando escutei a canção pela primeira vez, mas ela já se relacionava comigo na época, e hoje ainda se relaciona, mesmo que por uma releitura diferente, que representa o medo e a proximidade de se tornar o eu-lírico criado por Thom Yorke. E, paralelo a isso, é a música da banda que me apresentou o meu melhor amigo, que me tirou do “isolamento” adolescente na época do colégio, e que me proporcionou o melhor dia da minha vida, quando fui a São Paulo vê-los ao vivo.

Peço que escutem a canção, e que deixem a letra, o clipe e a interpretação tomar conta de vocês. Caso tenham chegado até aqui, também peço que, assim como no meu texto da semana retrasada, digam qual a sua trilha sonora, qual a sua história com essa música. E quem sabe ela vira um post para as próximas semanas.

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