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Você toparia ser morador de rua por um mês? Conheça a história de alguém que topou

Você vai ler uma história agora de ousadia, curiosidade, coragem. Você sabe como é ser morador de rua? Você daria emprego a um deles em sua casa se te pedissem? Você toparia ser “morador de rua” por um mês pra sentir na pele o que é estar do lado de lá?

Pois é, 11 anos atrás, alguém topou. Há alguns dias contei a vocês a história da jovem que foi pra Europa sem levar um tostão no bolso e ao escrevê-la, me veio à cabeça que havia alguém bem próximo a mim que já tinha feito uma loucura parecida e que vocês com certeza gostariam de conhecer a história. Trata-se do meu namorado, o jornalista Bruno Nascimento, que em 2002 se impôs o desafio de ir pra São Paulo viver um mês como morador de rua para saber como era e se era realmente possível alguém deixar as ruas tendo a seu favor apenas a vontade.

Conheça história.


Foto: Folha de São Paulo

Há muito tempo que eu me questionava sobre os moradores de rua de Goiânia: onde eles estão durante a noite? Porque durante o dia nós vemos dezenas de pessoas nos semáforos, sentadas no chão do Centro de Goiânia pedindo dinheiro, e durante a noite não os vemos? Onde estão? De baixo dos viadutos? Vejo poucos. Portanto – e hoje esse termo é usado cotidianamente – Goiânia (diferente de São Paulo), com raríssimas exceções, não tem moradores de rua, mas sim pessoas em “situação de rua”. Os moradores de rua são, geralmente, pessoas que saem de outros estados para trabalhar aqui e, não encontrando emprego, acabam encontrando o fundo da garrafa de cachaça, e por aqui ficam com receio ou vergonha da família. São os meninos que, com lares desestruturados, preferem a liberdade das ruas às suas casas. Mas eles têm casa.

Não raro ouvimos que muitas pessoas batem às nossas portas pedindo dinheiro e, quando perguntamos se a mesma quer lavar uma trouxa de roupa ou capinar um lote, ouvimos “não” como resposta. Mas quem já realmente fez isso ou conhece quem tenha feito? Às vezes nos acostumamos com respostas prontas e preconceitos enraizados para disfarçar a nossa omissão perante o próximo. É muito mais fácil reproduzir esse discurso – de que o pedinte, quando oferecida oportunidade de trabalho, o mesmo recusa porque é mais fácil ganhar dinheiro pedindo – do que realmente fazer algo em prol do ser humano. Todas essas questões me intrigavam. Será mesmo que ao ser abordado por algum mendigo as pessoas oferecem emprego, em vez de dar dinheiro? Eu mesmo nunca conheci ninguém que tenha feito isso Até porque, preconceituosos e medrosos que somos quem abriria a porta da sua casa para um “morador (a) de rua” lavar as roupas ou mesmo cuidar do jardim? A verdade é que todos nós queremos distância daquilo que nos incomoda, que mexe com o nosso status e, inconscientemente, com a nossa culpa.

Será que um morador de rua realmente consegue oportunidade nas ruas? Será que as pessoas de fato oferecem uma trouxa de roupa ou um lote para capinar, ou estamos apenas reproduzindo uma falácia que nos deixa mais confortáveis? Depois de tantos questionamentos resolvi eu mesmo viver isso na pele e tirar minhas conclusões. E assim o fiz em 2002. No meu primeiro dia de férias do Cartório onde trabalhava, comprei viajem de ida e volta para São Paulo e embarquei, com a roupa do corpo e R$ 10,00 no bolso. Vesti uma roupa bem velha (uma calça bem surrada e toda suja de tinta de parede), uma camiseta branca cavada e um tênis velho, que abandonei na primeira oportunidade que tive assim que cheguei a São Paulo. Por dentro na minha calça, costurei um bolso interno, com velcro, onde coloquei a passagem de volta e o meu documento de habilitação.

 

Os primeiros quatro dias eu passei mesmo na rua. Assustado com o tamanho de São Paulo, a primeira coisa que fiz ao sair da Rodoviária foi pegar um ônibus e pedir ao motorista para me avisar quando chegasse ao Centro.

– Mas em qual lugar do Centro?
– No Centro, uai.
– Sim, no Centro. Mas em qual lugar?
– No Centro mesmo. Centro.

Mal sabia que em São Paulo o Centro não era como Goiânia, resumido às Avenidas Tocantins, Goiás e Araguaia.

Perambulei muito, pedi no semáforo – mas não tinha paciência para ficar esmolando – passei pelo Brás, Tatuapé e demais inúmeros bairros, passei alguns bons sustos com gente esquisita na rua, peguei metrôs com um ticket de três viajem que um senhor me deu, ficava andando de um lado para o outro conhecendo os bairros que eu só conhecia por nome. Parei em frente à Estação Carandiru (que é alta e dava para ver completamente o Complexo do Carandiru) e fiquei admirando aquela “cidade”, que já estava desativada. Fui revistado por policiais, dormi na porta de igrejas (entre elas a da Praça da Sé) e sempre andava com sacos de lixo preto e um papelão, que serviam de cama e coberta.


Foto: Betto

Mas, não podia perder o foco, e passava tocando a campainha das casas pedindo dinheiro. A maioria não dava, e eu pedia comida. Alguns davam. Lembro que sempre conseguia pão de manhã. Lembro vagamente de duas situações: uma empregada doméstica que me tratou muito bem, e uma mulher que me deu comida gelada numa vasilha de sorvete. Carne gelada. Pedia oportunidade também, com o mesmo argumento dos que falam que pedintes não querem trabalhar: “o senhor tem um lote pra eu limpar, alguma coisa que eu possa fazer pra ganhar um dinheiro?”. Nunca tinham. Lembro que estava cansado porque andava muito, e que um dia deitei no banco de uma praça de manhã e, mesmo com o sol rachando mamona, consegui dormir até meio-dia. Só acordei porque um taxista foi lá me cutucar, falando que se eu ficasse ali iria pegar insolação.

 
Foto: Facebook

Nessas andanças avistei de longe a cruz no topo de uma igreja. Não sei por qual motivo, resolvi: “vou para aquele lugar”. Era a Igreja da Vila Santa Isabel, bairro que passei o restante de praticamente toda a minha estadia em São Paulo. Já era final de tarde quando passei em frente a uma pequena obra. Era um prédio pequeno, de cinco ou seis andares, que estava passando por reforma. Na verdade, ele estava praticamente sendo reconstruído. Parei de frente à obra e perguntei para os “peões” se não estavam precisando de ajuda. Todos falaram que não… Insisti, falando que estava precisando trabalhar, quando saiu de um pequeno cômodo um senhor bem vestido, que era o dono da obra.

– Você faz o que?
– Estou querendo trabalhar.
– Sim, mas o que você faz? É pedreiro, pintor, eletricista, encanador?
– Não tenho muita experiência, mas aprendo rápido.
– Não… Eu não estou precisando não. Mas se algum deles quiser te contratar pra você ajudar, aí é com eles.

Já quase indo embora um deles me chama. Infelizmente minha memória não me permite lembrar o seu nome, mas, ele me chama e me oferece um serviço: ajudá-lo a encher três caçambas de entulho/dia ao valor de R$ 10,00/dia. Aceitei na hora e prometi voltar na manhã seguinte. Perambulei um pouco no bairro, pedi cachaça num boteco que ficava a poucas quadras da obra (e que passei a visitar nos dias seguintes, só que desta vez, pagando pelo meu consumo) e dormi na porta da Igreja, junto a outros vários moradores de rua.

 

Já cedo, acordei e fui para a obra. Eram seis horas da manhã e levei a minha primeira e última bronca no trabalho.

– “Puta que pariu. Eu pedi pra você vim cedo, mas não era pra madrugar aqui não”, disse o meu patrão, com dificuldade para abrir os olhos, dada a claridade que interrompia o seu sono. Eu sempre acordava cedo. Não conseguia ficar domingo até mais tarde, no chão duro e o meu sono, claro, era fragmentado.

Ele perguntou onde eu morava e quando falei que morava na rua e havia dormido na Igreja, veio o primeiro gesto de humanidade daquele “peão”, cara fechada e mãos calejadas pela labuta do serviço braçal.

– Mas porque você não me falou. Podia ter dormido aqui dentro com a gente.

Pronto… Já havia conseguido lugar pra dormir. Depois de tomar café (pão com café preto, feito pelos próprios peões da obra), começamos a labuta. O patrão ganhava R$ 10,00 por caçamba cheia. Como ganhou reforço, nossa meta era encher três caçambas. Ou seja, ele ganhava R$ 30/dia. Pelo combinado, ganharia R$ 10/dia, mais almoço e janta. A partir dai os meus dias se resumiam em trabalhar – pegava entulho no fundo da obra de uma casa que havia sido demolida, colocava no carinho de mão, descia uma rampa estreita de madeira que dava acesso a uma espécie de quintal, descia a outra rampa de concreto, passava pelo portão, subia outra rampa estreita de madeira que havia sido colocada no chão e na borda da caçamba e despejava o entulho – comer, fumar, beber pinga no final do dia, tomar banho frio e dormir.

Basicamente passei os outros vinte e poucos dias assim: trabalhava das sete de manhã ao meio dia. Almoçava (e como comia, meu Deus). Deitava no chão de mármore do quintal de barriga pra cima pra cochilar 20 minutos. Voltava ao trabalho até às 19 horas. Ia pro boteco ao lado. Tomava, junto com o patrão, três doses de pinga. Voltava pra obra, jantava, tomava banho e dormia.

Nós dormíamos quatro pessoas em um quarto da obra. Em colchões. Eles pegavam cavaletes, colocavam uma madeira em cima (geralmente uma porta retirada de uma algum lugar) e improvisavam uma cama. Eu dormi no chão mesmo, porque não havia mais cavaletes sobrando. Era eu, o patrão, o Záo (Pintor) e outro rapaz, magro, que não lembro exatamente o que fazia. Além deles, convivia também com o Bin Laden (marceneiro), outro camarada que usava um óculo fundo de garrafa (ambos moravam no setor, por isso não dormiam lá), e a dona Cida, uma mulher que morava em uma casa, no fundo da obra, e que era uma espécie de “caseira”. Pelo que me lembro, era uma pessoa de confiança do dono, funcionária dele que cuidava daquele local.

No primeiro dia de trabalho, como era de se esperar, tive de responder um monte de pergunta. Inventei uma estória: falei que o meu nome era Bruno, que havia sido criado em um orfanato até os 13 anos de idade e que estava perambulando sem destino. Que tinha ido para São Paulo e estava morando na rua. No primeiro dia comecei a “filar” cigarro do Patrão. No terceiro cigarro ele me pergunta:

– Qual cigarro você fuma?
– Qualquer um.
– Então toma adiantados os seus 10 reais e compra o seu cigarro.

Assim. Curto e grosso.

Mas todos ficaram meio sensibilizados com a minha estória. Na mesma semana, dona Cida saiu na vizinhança e conseguiu um tênis e algumas roupas, que continuei usando por muito tempo, mesmo em Goiânia. Eu já tinha roupas, calçado e, além de pinga e cigarro, também comprei uma chinela com o adiantamento que me foi dado. Eles ficavam me perguntando coisas sobre a minha vida, dando conselho, de que eu precisava arrumar um lugar para morar, e depois de quase 20 dias até o dono da obra tinha planos pra minha vida: ia me ajudar a tirar documentos e me ofereceu um emprego: de porteiro e zelador do prédio, quando o mesmo ficasse pronto. Para isso, iria construir um barracão no fundo, onde eu iria morar.

Consegui juntar algo em torno dos R$ 200,00 durante esse período. Afinal de contas, não gastava com praticamente nada além da pinga e do cigarro. Não fumava muito: uns seis, sete cigarros por dia. Trabalhávamos de segunda a sábado, e depois do meio-dia os “peões” iam para as suas casas e eu ficava sozinho o dia todo (com exceção de quando dona Cida ficava na casa dela). Todos moravam longe da Vila Santa Isabel e a viagem para casa demorava de duas a três horas, segundo me contaram. Por isso, não havia possibilidade de dormirem em suas casas todos os dias. Com exceção do Záo, que tinha cara de bonzinho, todos os demais já tiveram passagem pela polícia por algum tipo de crime. Todos já haviam “puxado cadeia”, como falavam. Mas, viram no trabalho a oportunidade de “arrumar” a vida, com um pouco mais de dignidade. O Bin Laden, coitado, era o pior de todos. Tinha uns 40 anos, mas a aparência era de 70 por causa do crack.

 
Foto: Bruno Kelly/Reuters

Sim, naquela época o crack já estava forte em São Paulo e o Bin Laden era usuário compulsivo. No meu primeiro final de semana sozinho, foi o Bin Laden que me levou numa boca de fumo pra comprar umas graminhas de maconha (Sim, eu já fumei maconha. Como vários jovens na idade dos seus 16/18 anos). Ele comprou a droga (a minha e a dele) de um menino que estava soltando pipa com uma sacola pendurada no braço. Lá que ele guardava as “dolinhas”. O Bin Laden era uma figura a parte. Alto, branco, magro e barbudo, já tinha perdido quase todos os dentes e quando falava parecia que estava relinchando. Voltei para a obra, subi no último andar do prédio e acendi o baseado. O resto de sábado e todo o domingo se resumia a fumar maconha, ir ao boteco beber pinga, ouvir música num radinho de um dos colegas que ficava no quarto e dormir. As vezes andava um pouco pelo bairro.

Na segunda, eles chegavam cedo e a rotina se repetia. Um dos momentos mais gostosos de tudo isso foi quando fomos ao supermercado já no fim do expediente. Eles compravam arroz, feijão e carne, para fazer o almoço e a janta durante a semana. Coisa simples, mas que me deu muito prazer. De repente estava ali, Bruno, funcionário de Cartório, pretenso estudante de jornalismo, morador de Goiânia, com todo o meu DNA junto. Eu tinha uma vida, uma família. Era eu, em um local em que, temporariamente, não era mais. Fazendo compras com pessoas que havia conhecido ha poucos dias e feliz, por estar vivendo aquela experiência. Fui para São Paulo com a roupa do corpo mais R$ 10 reais e, de repente, estava trabalhando em uma obra, comendo bem e dormindo de forma confortável.

Fiz amizades, ouvia conselhos (meu Patrão me alertou e se mostrou preocupado quando me viu de “conversinhas” com o Bin Laden) e, se quisesse, iria viver outra vida naquele mesmo lugar, sem passar fome ou grandes necessidades. Na sexta-feira do meu último final de semana naquele local, o dono da obra me passou outro serviço para que eu fizesse durante o final de semana ocioso: passar zarcão em todo o portão da frente, que estava enferrujado. Pagou 70 reais pelo trabalho e eu pedi que fosse adiantado, porque precisava comprar algumas coisas, juntando R$ 270,00. No domingo de manhã escrevi uma carta agradecendo a todos pela oportunidade que me fora dada e contando a verdadeira história. Até hoje penso qual reação tiveram ao chegar segunda-feira de manhã e se deparado com a mesma. Até hoje tenho vontade voltar aquele local, e conversar com as pessoas. Será que a dona Cida ainda mora lá?

Dessa experiência não cheguei a nenhuma conclusão. Poderia concluir que só fica na rua quem quer, ou que a pessoa que tiver fé e bater nas portas certas pode mudar a sua vida por meio do trabalho e das oportunidades. Mas não… Não consigo chegar a uma conclusão certa, porque diferente de muitos que estão na rua, eu tive estudo e conhecimento. Creio que saber conversar, observar e ter noção de oportunidade fez parte do meu “sucesso” em São Paulo. Se fosse uma pessoa com menos estudo, talvez não tivesse a mesma consciência de que ali poderia render algo. Não sei… Não consegui tirar nenhuma conclusão.

 

Com exceção de algumas pessoas, poucos sabem dessa minha experiência. Não sei por que, mas nunca quis dar publicidade a isso. Mas, sempre me lembro dessa experiência, embora tenha esquecido algumas coisas, como se tivesse sido um sonho pelo qual eu tenho lampejos de lembrança.

Depois de passar zarcão em todo o portão durante toda a manhã de sábado, tomei um bom banho, coloquei a minha melhor roupa, escrevi a minha melhor carta e fui embora, levando comigo – além do restante das poucas roupas que havia ganhado – a saudade e um sentimento indescritível de que havia cumprido a minha missão, nas férias mais ricas em experiência de vida.

Fui embora querendo ficar, mas também com saudade da minha vida. Depois que sai da obra peguei um metrô para o Centro e, ali, já não era mais um “morador de rua” evitado. Vá lá que as roupas que eu estava não eram muito chiques, mas estava limpo, “bem vestido” e comprei meus tickets, em vez de ganhá-los. Fui para a Avenida Paulista, sentei num bar, tomei cerveja e comi um prato chamado “Brasileirinho”. Depois de gastar quase todos os meus R$ 270,00 andando por São Paulo, fui para a Rodoviária, já sentindo saudade do entulho e do cheiro da obra.

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