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Em um mundo de pessoas rasas, mergulhar de cabeça é perigoso; ou o dia em que me tornei um best seller desconhecido

Desculpem o título gigante, mas precisava deixar dessa forma.

Mesmo me arriscando sempre a brincar com as palavras, não sou escritor profissional. Passei a utilizar o Twitter em 2009 após uma matéria na revista Época e praticamente só o fazia para acompanhar o Marcelo Tas.

Até que descobri após uma matéria no saudoso Jornal da Tarde, que existia um movimento de pessoas – Marcelino Freire é um desses culpados – que aproveitavam a rede para compor microcontos. Assim me tornei adepto, criando um movimento conhecido como #CurtaConto, onde as pessoas contavam pequenas histórias em 129 caracteres [para incluir a hashtag].

Conheci muita gente boa com isso – minha esposa Flávia é uma delas – e a inspiração para escrever só aumentou. Passei a seguir e ser seguido por muita gente inspiradora e passei a jogar inspiração na timeline.

Mar Adentro com Javier Bardem

Nesse momento surgiu meu maior best seller. Havia assistido há pouco Mar Adentro, excelente filme em que Javier Barden interpreta um marinheiro que fica tetraplégico após um mergulho e luta pelo direito de tirar a própria vida. Pensando naquele personagem profundo e seu mergulho em um mar raso, fiz uma analogia com as pessoas rasas e superficiais que temos por aí:

O tuite teve algumas cento e tantas retuitadas e acabou assim. Até que na semana seguinte, uma garota postou em uma página do Facebook uma arte com essa frase assinada por um “autor desconhecido”. Uma conhecida chamou a atenção me linkando. Surgiu em outro lugar. E outra vez. E mais uma vez.

Fiz uma arte e postei em uma das minhas páginas no Facebook. Pouco depois, surgiu uma nova arte editando a assinatura do meu card original.

Quase 3 anos depois, ao verificar o Twitter – coisa que quase não tenho feito – me deparei com a frase assinada por um autor desconhecido novamente.

E assim surgiu o interesse de saber se a frase virou um “ditado popular” ou se em algum lugar davam autoria.

Acessei primeiro o Twitkibe, que mostra que por mais que minha postagem seja antiga, ela ainda anda influenciando muita gente na rede do passarinho azul.

Depois a tradicional googleada. Assim descobri que fui discutido como autor em uma pergunta do Yahoo, virei Cecília Meirelles no Twitter, uma tal de Thainná em um site, frase da novela Usurpadora em outro, deixado de lado em comparações com Saramago, Einstein e Jabor, inspiração para nome de blog e letra do Victor e Leo. Também não podia faltar os reis de citações do Twitter: Clarice Lispector e Caio Fernando Abreu também escreveram essa frase!

Encontrei assinaturas com meu nome, mas a grande maioria trazia autores diferentes ou desconhecidos. E foi nesse momento, na quarta página das dez que o Google me deu, parei.

Gosto dessa frase e me orgulho de a ter escrito. Talvez por não ter escrito nada melhor do que isso, fico chateado ao ver sendo creditada a outra pessoa, mas entendo, afinal, a publiquei em terra de ninguém. Fiquei imaginando quantas e quantas pessoas vivem o mesmo, muitas vezes sendo escritores, cronistas, redatores e trabalhando com a escrita. Pior: quantas pessoas não pegam frases e trabalhos de outros e assinam como suas para conseguir um emprego ou um pouco de atenção?

Um passo de cada vez, lembrando que passos contentes valem por 3

A Flávia mesmo já cansou de ver uma de suas tuitadas, a “um passo de cada vez, lembrando que passos contentes valem por três” sendo assinada por outras pessoas e transformada em artes nas redes sociais sem crédito.

Vivemos em um mundo onde o pensamento individual que dá certo é assumido como coletivo. O autoral vira desconhecido e a assinatura é borrada na publicação.

Tempo de best sellers sem autores – enquanto alguém não registra na biblioteca nacional como seu.

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