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A Origem das Serenatas

Gentil sorria. Sua mãe ainda tinha alguma dúvida, mas a louça parecia mesmo estar limpa e ela não se lembrava de ter visto um quarto tão arrumado assim desde que a Lucinha tinha saído de casa. Ainda assim, manteve o olhar cético e tentou não perder a posição de autoridade que precisava ser conquistada dia a dia. Mas o moleque continuava sorrindo.

“Ok, mas volta antes das nove, que o microondas estragou e eu não vou requentar comida durante a novela. Se demorar muito, eu te ligo.”

Gentil pegou o violão pousado sobre o armário, olhou pela janela, tentando calcular se o sol já teria baixado o suficiente quando ele chegasse, e saiu. O vento quase arrancou seu chapéu, herança forçada do pai ausente, que o moleque insistia em usar até para ir ao colégio, sem se importar com as piadas dos amigos.

O destino era um pouco longe, mas Gentil não se incomodava de caminhar. Sabia que quando chegasse, o sol já estaria se pondo e o vento frio que já soprava há algumas noites daria conta de não cansá-lo demais. Cumprimentou o vendedor de flores com um aceno de chapéu. O local onde parou não era diferente do que qualquer outro pedaço de terra em volta. Mas Gentil sabia onde estava e saberia chegar ali de olhos fechados, se precisasse. Situado entre a grama não cortada desde novembro do ano passado e o muro de pedra, ficou parado e escutou. Ouvia-se apenas o vento, talvez alguns insetos, e muito, muito ao longe, algumas vozes que talvez fossem de dor, talvez de clemência – ainda que tardia.

Sua cabeça balançava para uma melodia silenciosa quando ele levantou seu instrumento, e se posicionou diante dela. A mão direita firme conduzia o que parecia uma valsa, mas a mão esquerda, que já poderia criar algum acorde, apenas segurava o braço do violão, que nunca havia sido afinado desde que Lucinha foi internada.

Gentil não sabia tocar. Ela sempre disse que lhe ensinaria quando voltasse de Paris, quando também lhe contaria todas as histórias dos violeiros que ainda faziam serestas na janela das amadas. Paris é bem bonita, ela dizia. Da próxima vez você vai comigo, ela dizia. E a gente acha uma francesinha bem bonita prá você fazer uma serenata, ela dizia, e eles riam juntos. Gentil não via a hora de ser grande e poder ir com sua irmã a Paris, que só via por fotos e só sabia que tinha aquela torre bem grande e bem bonita, toda iluminada.

O som irritante e repetitivo que saía do violão agradava Gentil. Ali estava o seu melhor público, a sua fã número um, que certamente também não se importaria de escutar a mesma nota por horas e horas. Sempre que pudesse, e sempre que a sua mãe, que nunca mais saiu de casa desde o acidente, deixasse, Gentil visitava Lucinha e lhe mostrava o quanto havia aprendido. Um dia eu vou prá Paris, mana. Um dia eu vou tocar na janela das francesinhas, dizia.

O som foi interrompido pelo toque do celular. Interrupções como essas tiram o foco de qualquer músico, mas Gentil já estava terminando seu show. O jantar estava servido.

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