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Pareidolia (ou "A arte de arruinar uma música")

Eu sei, eu estou usando essa palavra do modo errado. É que eu não achei melhor termo pra colocar de título (tanto que precisei de um subtítulo, veja só) e um dia me disseram que meu uso de metáforas é tão ruim que chega a ser um charme.

Mas pareidolia, para os que já ouviram essa palavra em algum lugar mas têm preguiça de abrir uma wikipédia em outra aba, é um fenômeno psicológico que faz com que a gente encontre significados em estímulos aleatórios. Como aqueles dias em que você deitava com o seu namorado na grama do parque e via um zoológico inteiro nas nuvens do céu. Ou quando você colocou aquele disco do Led Zeppelin ao contrário porque deu na tevê que tinha mensagem do demônio. Ou as infinitas manifestações de Jesus Cristo em diferentes laticínios ao redor do mundo. Enfim.

(Olha só, terceiro parágrafo e eu não consegui começar o texto ainda, me perdoe tanta prolixidade, com o tempo você se acostuma, mas enfim, dizia eu que) Agora que vocês sabem o que é pareidolia, eu estou aqui para fazer um alerta. Um alerta muito importante. Todos os dias, milhares de pessoas correm o risco de perder a sua música favorita, às vezes o seu disco favorito inteiro… Para uma memória. Anos construindo a adoração por uma banda, comprando os discos, indo aos shows, e basta apenas um dia, uma hora, um minuto da sua vida, um “não é você, sou eu”, um “preciso de um tempo”, um “a gente pode ser amigo”, um “tô saíndo com o Alex da academia” e pronto. Canções arruinadas para o resto da vida.

A verdade é que ainda não inventaram melhor máquina do tempo que a música.

Deixe-me explicar com uma história verídica (mentira, não é verídica, até parece que eu escreveria uma história verídica no meu primeiro post aqui, ora veja). Minha primeira namorada era muito fã de Beatles. Foi sobre eles a nossa primeira conversa. Na época, compatibilidade musical era provavelmente o que mais me atraía em uma menina (isso e o fato de ela também estar atraída por mim, e só Deus sabe como era raro existir alguém com essas duas características). Não precisou um mês de namoro, e nas legendas das fotos que a gente colocava no orkut (porque eu não sou tão velho assim, mas também não sou mais tão novo), pedíamos emprestado para o John e o Paul os versos de “In my life”. Eu deveria ter percebido antes. Mas já era tarde demais. Como todo casal feliz, e que por estar feliz deixa os neurônios em casa quando sai pra se ver, decidiu-se que aquela era a nossa música.

E foi a “nossa música” por mais dois meses. E isso foi há sete anos.

E esse é o problema. Assim como você vê uma carinha triste na tomada do banheiro ou um casal fazendo sexo no cubo de gelo da propaganda da Coca-cola, eu a via naquela música. Eu escutava a voz dela em cada verso. Eu confundia seu cheiro com o do vinil. Já era impossível desassociar.


Ou seja, a minha memória é como a Yoko.

É mais difícil esquecer alguém que a gente conheceu com música de fundo. Você, neste momento, também deve estar se lembrando daquela música que você não consegue mais ouvir com os mesmos ouvidos. Feliz é quem ainda consegue escutar suas músicas favoritas sem se lembrar de nada.

E agora, caro leitor que já deve estar afogado em tanta prolixidade e incoerência, me pergunte se eu ainda consigo escutar essa música dos Beatles com os mesmos ouvidos adolescentes e sonhadores daquela época.

Vai, pergunta. Eu espero.

A resposta é: sim, eu consigo, pois essa história, como eu disse antes, não é verídica. Assim como a legenda da foto dela no Facebook com o Alex da academia e a letra de “Baby One More Time” também não é verídica…

…Mas eu deveria ter percebido antes.

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